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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Cellar Door, Átila Guimarães



aprendi a observar calado
aprendi a esperar os primeiros meneios de sua cabeça
Ao que meu espírito se agitava,
ansioso, num frêmito de liberdade
excitado

esperar, esperar, esperar
no intervalo de seu sono
saltar, a mola da liberdade
disparar
gritar, partir e ir
agir num labor vigilante e frenético
vivendo desesperado
tudo que não foi sonhado, agido, feito e dito

Agindo rápido num disparo
afoito, célere, num espasmo de ato duplo
onde eu não era muito eu
era a sentinela de uma sentinela
onde eu não era eu, mas era

esperar, esperar, esperar
no intervalo de seu sono saltar
a mola da liberdade disparar
saltar, para depois
retornar
no canto mais escuro da masmorra quedar
jazer aonde a luz não me pudesse alcançar
exatamente no limiar
fímbria d'onde pudesse vigiar

e de novo

esperar, esperar, esperar


terça-feira, 31 de maio de 2011

Rocha e Luz, Átila Guimarães

.
.
Sempre quis me perder no meio das montanhas
Sempre
Sempre quis me perder no meio das montanhas

Sempre

Sempre quis me perder

Me pulverizar em partículas minúsculas de clorofila
neblina e luz
com momentos de frio e
sol

E estar em toda parte

E morar ali

Vértice de nuvens terra vento,
e luz
verde
e azul
.
.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A Hole In The Head, Átila Guimarães

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Bateu com a
cabeça na parede
cabeça na parede
cabeça na parede
200 vezes

Que alívio.

Repetida mente
De novo:
Repetida
Repetida
              Mente

Repetida
Repetida
             Mente

Nossa...
             Que alívio

De novo

Como os antigos incas

Repetida
             Mente

Até
     obter
            o
              buraco
                        na
                            cabeça
.
.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Sépia Nítido, Átila Guimarães

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.
200 coisas sem sentido

na vida,
comida
e a velha caixa cheia de fotografias,
o filme
final,
o princípio

Sépia-nítido,
intervalo
preciso
entre respirar e

respirar

Um
percurso
.
.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Quasi Dorian, Átila Guimarães

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.
Eu disse a você:

Preciso que toque dentro de mim,
Que entre dentro de mim e me toque
Preciso que acaricie algo dentro de mim e me cure

Preciso que toque um bolo de ódio, tristeza e dor que há dentro de mim,
uma bola de pus que há dentro de mim...

Não.
É mais consistente e mais sólido
É meu carnegão
O meu carnegão ontológico
O meu pus idiossincrático

Meu Quasímodo, meu Dorian...

E eu vi no seu rosto que você não podia.

Temia, tremia, não ousava
seus olhos
eu vi nos seus olhos
(na verdade sempre vi e vi o que queria
minha dor
na sua dor
ela é que via)

Não podia

E eu continuei com a minha dor

Mas tive um alívio
(que eu senti de imediato)

Vi que não era você
.
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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A palavra - segundo tratamento, Átila Guimarães

.
.
A palavra chegou aonde eu estava
me tocou,
a palavra

A palavra me
tocou
tangeu gado morto

A palavra

A palavra entrou
pelos meus olhos
pelos
pelos

A palavra

A palavra pelos cabelos

A palavra
capilar
cardíaca
mental
viva

A palavra
me buscou
A palavra me fustigou
A palavra me flagelou
A palavra corda
A palavra tudo

A palavra com,
A palavra solo,
A palavra lavra
palavra larva

palavra larva
palavra miolo
palavra mente
palavra lavra
palavra solo
palavra grão
palavra solamente

palavra, solamente

palavra

Pa lavra mente, palavra'corda,
a palavra oratório,
oração
palavrório, palavrudo

A palavra

Tudo
.
.

sábado, 3 de outubro de 2009

A palavra, Átila Guimarães

.
.
A palavra chegou aonde eu estava
me tocou,
a palavra

A palavra me
tocou
tangeu gado morto

A palavra

A palavra entrou
pelos meus olhos
pelos
pelos

A palavra

A palavra pelos cabelos

A palavra
capilar
cardíaca
mental

A palavra
me buscou
A palavra me fustigou
A palavra me flagelou

A palavra corda

A palavra tudo

Palavramente, palavra'corda,
a palavra oratório,
palavrório,
palavrudo

A palavra

Tudo
.
.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Carne Quasar, Átila Guimarães

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A alma se expande e se contrai...
Se expande e se contrai...

Sístole e diástole organo-cósmicas

Entropia das vísceras

Anã branca do coração

Horizonte do olhar
Brilho da visão

Estrela da existência
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domingo, 30 de agosto de 2009

Bottled Chemical People, Átila Guimarães

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Hoje eu preciso chorar o mundo,

carpir
carpir

Num mundo de pessoas felizes

Não há mais dores, nem fracos

Só frascos

Todos querem ser Baudelaire
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domingo, 16 de agosto de 2009

Tecido e Caminho, Átila Guimarães

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As vezes eu acordo e,
Minha essência parece que viajou a noite inteira,
por lugares distantes...

Ou parece que comeram um pedaço de meu cérebro.

Parece que me dividi em várias pessoas,
Vários lugares,
Lugares demais.

E meu corpo está descansado,
Mas minha alma é a do viajante que chegou agora.

E meu corpo está descansado,
Mas é como estar sentado
ao lado, num
banco,
de alguém extenuado
Ao lado do migrante, numa
rodoviária

Sentado na rodoviária do Bosque-Entre-os-Mundos.

De manhã

Minha alma viajou bastante
.
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domingo, 7 de junho de 2009

Caixa, Átila Guimarães

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Quando ele morreu,
puseram suas coisas em uma caixa,

E ela foi para algum canto.

Para serem esquecidas

Coisas, que, na sua maior parte, só ele
sabia o sentido.

Coisas que tinham vida,
passaram a ser
coisas mortas.

Coisas energizadas de
sentimento,

Viraram
esquecimento

Poeira

E o que era uma
vida inteira, virou
pedaços

Nada,

Em caixa
.
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domingo, 8 de fevereiro de 2009

Rosebud, Átila Guimarães

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Hoje, na minha mente, eu fui ao prédio da minha infância,

O elevador da minha infância,
Os corredores da minha infância,
As portas da minha infância.

Porque tudo é tão escuro?
Até as cerâmicas são escuras...

Depois saí, e matei uma pessoa que me incomodava.
Depois matei várias pessoas que me incomodavam.
Depois matei todas as pessoas, porque elas fazem parte desse sistema caótico e barulhento que se chama Humanidade.

Ah...
Poupei alguém...

Poupei aquele patinho de borracha que tomava banho comigo.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Quantum em mim, Átila Guimarães

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Às vezes - muitas - entro no meu crânio e me assusto.

Espaço sem fim, tempo sem hora,
Emoção sem porção,
Nós em vínculos,
Esteira inteira, em pontos e ondas.

Tudo ao mesmo tempo,
Agora.

Aí,
Eu me levanto,

E acendo a luz.
.
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domingo, 4 de janeiro de 2009

Ex-pano, Átila Guimarães

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Eu lavei o pano,

Lavei o pano

Parei e olhei

Olhei, eu olhei

Essa camisa, eta, pano de chão.

Cheia de furos

Olhei, eu olhei

Estava no fundo do armário, dum armário.
Dum fundo de armário ela veio.

A ex-camiseta do ex-marido passou pra mim,
pra dormir numa noite.

Estava suja, suja,
preta e imunda
Estava na área da minha casa limpando o chão.

Cheia de furos

Cheia de furos
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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A Morte, Átila Guimarães

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E então um dia eu resolvi enganar a Morte,
Entrei debaixo de toneladas de lençóis, cobertores e travesseiros,
E fiquei ali.

E mimetizei com lençóis, cobertores, travesseiros.

Entrei debaixo de toneladas de lençóis, cobertores e travesseiros,
E fiquei ali,
Quietinho,
Seguro.

Eu não era mais um garotinho,
debaixo de toneladas de lençóis, cobertores e travesseiros,

Eu era uma rocha, uma casamata, um bunker,
mimetizado,
transformado em segurança.

Na minha cápsula atemporal e transfísica, de
lençóis, cobertores e travesseiros.
.
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quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Us, Átila Guimarães

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E então nós somos esse feixe de medo e raiva,
perdas e ganhos,
horizontes e abismos,

Pedaços e partes.
em vidas inteiras,
ontem eu estive com alguém que não aguenta mais viver,

E vi pessoas esbanjando pretensão e arrogância

Vi alguém sem forças para sair de casa.
E vejo, toda hora pessoas com força de sobra para matar,

E é assim.

Pedaços e partes,
em vidas inteiras.

E nós somos isso,
Pedaços de medo e rancor,
esperanças e amizade,
fingimento e rasgos de sinceridade.

Rasas pessoas profundas
Profundas pessoas raras.

E então somos isso e isso é que há,
para o bem ou para o mal.

Eu vi alguém sem forças para viver,
E vi nuvens lindas e o sol brilhante.

E então é isso

Então,
é assim.
.
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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Alma, repouso e movimento, Átila Guimarães

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Quero fazer um belo poema sobre minha vontade de morrer,
sobre minha vontade de partir.
Essa vontade tão bela,
quanto incompreendida.
Quão incomprensível...
Mas estou com sono,
com sono

E então minha alma, que é só movimento
- acabou de mover-se por dentro de minhas costelas -,
quer partir para mais perto,
minha alma, que é
só movimento,
só movimento,
só movimento...
quer repouso.

E eu vou dar-lhe.
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segunda-feira, 28 de abril de 2008

Outroboros Nenen, Átila Guimarães

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prisma

luz
ponto central de tudo

para fora
dentro de mim

sensações em ondas

um infinito interno que compete com o universo

Chave Aleph

O músculo cordial

Sentido ou não-sentido

Não-Bem, Nem-Mal

Sentido ou não-sentido

Nem-Bem, Não-Mal

sentido ou não-sentido
Sentido ou não-Sentido

Nem-Bem, Nem-Mal, nenen,
Nem-Bem, Nem-Mal, nenen...

nenBem, nenMal, nem
nenen

Do âmago até as bordas de tudo...

E além

E de volta

Oroboro Bosque Entre-Os-Mundos.

Eu estou aqui.

Não estarei mais...

Também
.
.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Osso, Átila Guimarães

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Eu sinto medo toda hora
Sinto arrepio nos ossos
Sinto tensão nos ombros

Sinto medo
Sinto medo
Sinto medo

Sinto medo do fim
Sinto medo da solidão
Sinto medo do início
E do meio

Sinto medo do que as pessoas fazem
Para não sentir medo
Tenho medo.

Eu vejo o que fazem
para não sentir
medo
Vejo.
Vejo o que fazem para não sentir
Medo.
Vejo
Eu vejo.

Minhas pupilas se dilatam com o que vejo
Amedrontador
Eu o faço também!

A medontra dor
Amedontr a dor
A me dontra dor
A me don tra dor

Amedontr'a dor

Meus ossos
com medo
Minhas células
com medo
Meus pensamentos
medrosos
Minhas emoções
amedrontadas

Eu toco nas coisas com medo
Eu já vi.
Sinto medo
Sinto medo

Coisas caem e se
transformam

Sinto o medo metafísico,
Físico,
O abstrato.
Medo da presença,
Medo das ausências,
da chegada
e das partidas
Do interlúdio

Da espera
Tenho medo
Tenho medo enquanto espero

Enquanto espero

(Suadas
minhas mãos suaram a vida
inteira)

Enquanto espero.

Tenho medo
.
.