A empolgante história de William Wilberforce, o parlamentar que fez a Inglaterra abolir o tráfico de escravos
Isabela Boscov
William Wilberforce e William Pitt são nomes conhecidos de qualquer inglês que tenha prestado um mínimo de atenção às aulas da escola – e um dos méritos de Jornada pela Liberdade (Amazing Grace, Inglaterra, 2006), que sai agora diretamente em DVD no país, é apresentá-los ao restante do público. Amigos do peito desde a universidade, esses dois prodígios do século XVIII chegaram ao Parlamento britânico no início dos seus 20 anos; aos 24, Pitt se elegeu primeiro-ministro (não à toa ganhou o apelido de "O Jovem", para diferenciá-lo de seu pai, de quem herdou o nome e que também ocupara o cargo). Mas, em vez de só fazer alguns discursos e conchavos, como era costume até então, decidiu fortalecer o cargo e implantar um projeto político. Entre os itens prioritários de sua agenda estava banir o tráfico de escravos, que a Inglaterra liderava, e ao qual ele não podia se opor diretamente, já que a maioria dos parlamentares tirava dele, de alguma forma, sua fortuna. Pitt convocou então Wilberforce para a tarefa, apresentando-o a um grupo de religiosos que eram abolicionistas devotados e convencendo-o a usar toda a sua invectiva, energia e extroversão para pleitear uma lei contra o tráfico. Wilberforce acabou ficando mais realista do que o rei: de 1787, quando iniciou a missão, até sua morte, em 1833, pôs todo o resto de lado para trabalhar pela abolição, erguendo um movimento que ecoaria, nas décadas seguintes, em outros dois grandes centros escravagistas – os Estados Unidos e o Brasil.
Pitt e Wilberforce se opunham à escravidão por razões morais, mas eram duas raposas que sabiam como qualquer outro político usar lábia e artimanhas para chegar aonde queriam. A diferença está, claro, no aonde ao qual eles queriam chegar. A argumentação de Wilberforce, exposta em décadas de campanha junto ao público, sobre a inviolabilidade do conceito de que todos os homens são iguais foi tomada de empréstimo em parte pelo presidente americano Abraham Lincoln no ato de 1863 que aboliu a escravidão – e praticamente na íntegra por brasileiros como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa e o ex-escravo Luiz Gama, que cumpriram no Brasil papel semelhante ao que Wilberforce desempenhou junto aos ingleses. Eis aí, portanto, o que há de mais inteligente e atual em Jornada pela Liberdade: a defesa que o filme faz da política como uma arena não apenas possível, mas ideal, para o exercício da ética.
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