Nós estamos vivendo na Matrix
Nova teoria diz que universo pode ser virtual e que isso resolveria todos os problemas da física moderna
André Machado
21.01 Globo Infotec
O universo é uma grande Matrix, e o Big Bang, que criou o cosmo junto com o tempo e o espaço, foi na verdade a inicialização de uma realidade virtual que já dura 15 bilhões de anos. Essa é a tese de Brian Whitworth, cientista do centro de matemática e computação teórica da Universidade de Massey, em Auckland, na Nova Zelândia. Pela primeira vez, um cientista propõe que a realidade em que vivemos pode não ser objetiva, mas uma realidade criada pelo processamento de informação. Whitworth defende que, para resolver um monte de dilemas da física moderna, é preciso juntar a seus postulados os da ciência da computação e dos sistemas de informação.
O cientista começa lembrando que a física tem algumas leis estranhíssimas - mas todas comprovadas por experiências e equações. E a física "macro", das coisas observáveis, não se coaduna com a física "micro", da mecânica quântica, em que acontecem coisas do arco da velha. Senão vejamos - as partículas quânticas são capazes de se "teleportar", aparecendo de repente do outro lado de uma barreira, e podem interagir simultaneamente quando induzidas ao "emaranhamento quântico", de modo que se um partícula fica num estado a sua "gêmea" ficará no mesmo estado, ainda que esteja em outro planeta. Já na física da relatividade, a velocidade da luz não muda, enquanto a gravidade pode curvar o espaço e o tempo.
A reconciliação de contradições na física
Além disso, a teoria do Big Bang diz que antes do universo não havia nada - nem espaço, nem tempo. Mas seria possível o cosmo surgir de lugar nenhum e em tempo nenhum? Para Brian, a aceitação de que vivemos uma realidade virtual, não objetiva - que, na verdade nos parece bem palpável justamente porque fazemos parte dela - resolveria todos esses problemas da física. Primeiro, a idéia de um Big Bang (um grande boot) faria sentido, e não haveria nenhum problema se nada existisse antes, "porque antes não haveria, mesmo, tempo ou espaço da forma como definidos por esse universo virtual", da mesma maneira que antes de um computador se iniciar nada há. Depois, esse universo virtual andaria de mãos dadas com todo tipo de cálculo, como quer a física - afinal, o processamento da informação seria sua própria razão de existir. E, por fim, ele seria capaz de unificar as confusas leis da física.
"A teoria de uma realidade virtual poderia reconciliar a contradição entre a relatividade e a teoria quântica", escreve Brian. "A primeira mostraria como processamento da informação cria o espaço e o tempo, e a segunda mostraria como, através do mesmo processamento, seriam criados energia, matéria e carga". A famosa equação de Albert Einstein de transformação de matéria em energia seria simplesmente a informação indo de uma forma a outra...
Embora cite o filme "Matrix" na tese, Brian explica que ela não representa sua idéia do universo virtual, já que no filme a realidade simulada existe dentro de um mundo físico. O que ele propõe é muito mais radical: que tudo que existe seria fruto de um processamento externo. " Nosso próprio ato de observar o mundo poderia criá-lo", diz. Assim como, na tela do computador, à medida que andamos por um mundo virtual ou game, o PC vai calculando a parte do mundo que estamos vendo e a exibe, no universo virtual isso também acontece, só que em três dimensões e dentro de nossa noção (programada! como nossas sensções, aliás) de espaço e tempo.
A questão é que a "interface em que vivemos é diferente de qualquer outra - afinal, não somos feitos de pixels ( será que não?) e experimentamos tudo de dentro. Isto é, se formos os jogadores reais. Mas essa é outra história.
John Tierney
Antes de conversar com Nick Bostrom, um filósofo da Universidade de Oxford, nunca me ocorreu que nosso universo pode ser o hobby de alguém. Eu nunca imaginei que o onicisciente e onipotente criador do paraíso e da terra poderia ser uma versão avançada de um cara que passa seus fins de semana construindo modelos de ferrovias ou desenvolvendo jogos como The Sims.
Mas agora isso parece perfeitamente possível. Aliás, se voce aceitar uma presunção - perfeitamente admissível - do Dr. Bostrom, é quase matematicamente certo que nós vivemos na simulação do computador de alguém.
A simulação seria parecida com a de The Matrix, onde os humanos não percebem que suas vidas e seus mundos são apenas ilusões criadas em seus cérebros enquanto seus corpos são suspensos em compartimentos líquidos. Mas na percepção da realidade do Dr. Bostrom, você não iria ter nem mesmo um corpo feito de carne. Seu cérebro apenas existiria em uma rede de circuitos de computadores.
Você não poderia, como em The Matrix, desplugar seu cérebro e escapar de seu compartimento para ver o mundo físico. Você não poderia desvender a ilusão a não ser que você use a lógica empregada pelo Dr. Bostrom, diretor do Future of Humanity Institute, em Oxford.
Dr. Bostrom afirma que avanços tecnológicos poderiam produzir um computador com mais poder de processamento que todos cérebros no mundo, e que os avanços da humanidade, ou “pós-humanos”, poderiam rodar “simulações ancestrais” de sua história evolucionária criando mundo habitados por pessoas virtuais com completo desenvolvimento do sistema nervoso.
Alguns experts em computação projetaram, baseados na evolução de poder de processamento, que nós vamos ter tais computadores até o meio do século, mas isso não importa ao argumento do Dr. Bostrom quer isso leve outros 50 ou 5 milhões de anos. Se a civilização sobreviveu o suficiente para alcançar este estágio, e se os “pós-humanos” estiverem rodando várias simulações para propósitos de pesquisa, ou entretenimento, então o número de ancestrais virtuais que eles criaram seria vastamente maior que o número de ancestrais de verdade.
Não haveria como nenhum desses ancestrais saber, com certeza, se são virtuais ou reais, pois as visões e sentimentos que experienciam seriam indistingüiveis. Mas já que haverá tantos mais ancestrais virtuais, qualquer indivíduo poderia chegar a conclusão de que as probabilidades dizem, quase que certamente, que ele, ou ela, está vivendo em um mundo virtual.
A matemática e a lógica são inoxeráveis se assumirmos que muitas simulações estão sendo rodadas. Mas há duas hipóteses alternativas, segundo o Dr. Bostrom. Uma é que a civilização nunca chegou a tal tecnologia que possa rodar simulações (talvez até porque ela iria se auto-destruir antes de chegar a este estágio). A outra hipótese é a de que os pós-humanos decidirão não rodar tais simulações.
“Este tipo de pós-humano pode ter outro tipo de divertimento, como simular/estimular diretamente seus centros de prazer,” diz Dr. Bostrom. “Talvez não necessitem rodar simulações para razões científicas por terem metodologias melhores para entender seu passado. É muito possível que tenham proibições morais contra a simulação de pessoas, apesar de que o fato de algo ser imoral não significa que não acontecerá.”
Dr. Bostrom não tenta dizer qual das hipóteses é a mais provável, mas ele acha que nenhuma deve ser descartada. “Minha intuição, e nada mais que isso,” diz ele, “é de que há 20% de chance de nós estarmos vivendo em uma simulação computacional.”
Minha intuição é que as chances são mais de 20%, talvez bem mais que isso. Eu penso que é altamente provavel que a civilização pode chegar a produção desse tipo de supercomputador. E se os donos dos computadores forem como as milhões de pessoas que interagem com mundos virtuais como Second Life, SimCity e World of Warcraft, eles estariam rodando simulações apenas pela chance de controlar a história – e dar a si mesmos papéis virtuais como Cleopatra ou Napoleão.
É desconfortante pensar que o mundo está sendo rodado por um Geek do futuro, apesar de que, assim possamos decifrar aquela clássica questão teológica: “Como deus pôde permitir tanto mal no mundo?”. Pela mesma razão que existem pragas, terremotos e batalhas em jogos como World of Warcraft. Cara, a paz é chata.
Uma questão mais pratica é como comportar-se em uma simulação. Seu primeiro impulso seria dizer que nada mais importa, pois nada é real. Mas, apenas porque seus circuitos neurais são feitos de silicone (ou qualquer tipo de material que os supercomputadores usem) ao invés de carbono, não signfica que seus sentimentos e percepção sejam menos reais.
David J. Chalmers, um filósofo da Australian National University, diz que a hipótese do Dr. Bostrom não é causa para ceticismo, mas simplesmente mais uma explicação metafisica para nosso mundo. Qualquer coisa que você está tocando agora – uma folha de papel, um teclado, uma caneca de café – é real pra você mesmo, tenha sido criada num circuito de computador, ou feita dos velhos e conhecidos madeira e plástico.
Você ainda tem o desejo de viver o mais possível nesse mundo virtual – e em qualquer simulação pós-vida que o designer deste mundo lhe der. Talvez isso significa seguir principios morais tradicionais, se você pensar que o designer pós-humano compartilha dessas morais e lhe recompensaria por ser uma boa pessoa.
Ou talvez, sugerido por Robin hanson, um economista da George Manson University, você deveria tentar ser o mais interessante possível, na teoria de que o designer provavelmente o manterá por perto para sua próxima simulação. (Para mais estragétias de sobrevivência num mundo simulado, http://www.nytimes.com/tierneylab)
Obviamente, é difícil adivinhar como seria a personalidade do designer. Ele ou ela poderia ter um corpo de carne ou plastico, mas o designer pode também ser um ser virtual vivendo dentro de um computador de uma forma ainda mais avançada de inteligência. Poderia haver camadas sobre camadas de simulações até que você finalmente chegue à arquitetura da primeira simulação – vamos chamá-lo de Prime Designer.
Então novamente, o Prime Designer não permitiria que suas criações começassem a simular seus próprios mundos. Uma vez que se tornassem espertos o suficiente para isso, iriam presumidamente perceber, pela lógica do Dr. Bostrom, que eles mesmos seriam simulações. Iria isso atrapalhar a diversão do Prime Designer?
Se a descoberta do que está se passando pelos habitantes puder desestabilizar ou paralisar a simulação, eu não deveria estar divulgando as idéias do Dr. Bostrom.
Mas se você ainda está aí, lendo isso, suponho que o Prime Designer deva ser tolerante o suficiente, e curioso, para querer ver como reagiremos ao entender a situação.
Também é possível que camadas sobre camadas de simulações provoquem um problema de... meta-logística. Não haveria poder computacional para continuar a simulação com bilhões de habitantes do mundo virtual começando a criar seus próprios mundos virtuais - com bilhões de habitantes cada.
Com futuristas que pensam que, neste século, teremos um computador com o poder de simular todos os habitantes da terra, isso seria uma má notícia. Começaríamos a simulação, esperando vislumbrar todo um Novo Mundo virtual, mas ao invés disso nosso próprio mundo poderia terminar. Não com um Bang, uma explosão, mas como uma mensagem do computador do Prime Designer.
Poderia ser algo tosco como “Memória Insuficiente para Continuar a Simulação.” Mas acredito que seria mais simples: Game Over.
originalmente publicado no blog em 30.10.2008 10:22
