Essa plenitude é (...) a reconciliação de si consigo mesmo, que tem como condição o exorcismo do duplo. Renunciar a pintar-se de frente equivale a renunciar a se ver, quer dizer, renunciar a idéia que o eu possa ser percebido numa réplica que permite ao sujeito apreender-se a si mesmo. O duplo, que autorizaria essa apreensão, significaria também o assassinato do sujeito e a renúncia a si, perpetuamente despojado dele mesmo em benefício de um duplo fantasmático e cruel; cruel por não ser, como diz Montherlant: "Porque são os fantasmas que são cruéis; com as realidades podemos sempre nos arranjar." Eis porque a assunção jubilosa de si para si mesmo, implica necessariamente a renúncia ao espetáculo de sua própria imagem. Porque a imagem, aqui, mata o modelo. Intimamente, o erro mortal do narcisismo não é querer amar excessivamente a si mesmo, mas ao contrário, no momento de escolher entre si mesmo e seu duplo, dar preferência à imagem. O narcisista sofre por não se amar: ele só ama a sua representação. Amar-se com amor verdadeiro implica uma indiferença a todas as suas próprias cópias, tais como podem aparecer para os outros e, pelo viés dos outros, a mim mesmo, se presto muita atenção a eles. Esse é o miserável segredo de Narciso: uma atenção exagerada ao outro.
Clément Rosset


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