quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A história do Zé Rios:

Quando eu frequentava o A.A., eu frequentei um grupo atípico - se é que em termos de A.A. cabe o termo "atípico", rsrs. Éramos uns cinco ou seis. Todas as reuniões estávamos lá juntos, a intimidade era grande fabulosa e as reuniões antológicas. Em tudo. Em intimidade - como eu já disse -, em sinceridade, em aprendizado, em companheirismo. Em tudo. Conforme eu precisava. Eu precisava de TUDO.
Lá tinha um cara cujo nome era Zé Rios. Provavelmente a esta hora ele já está morto, velhice eu creio.
O Zé Rios, entre a fauna já estranha do A.A., era um caso especial. Bem, eu achava especial. Nordestino, tinha vindo beber no Rio; se acabara nas sarjetas, na Lapa, na degradação. Malandragem, mendicância, marotagem, paraibice, alcoolismo. Tudo junto. Tudo, tudo junto. Ele era uma figura. Ladino como o que... Seu olhar, ou o seu semblante - ou mesmo o seu eu - era o misto de muitas caras, muitas facetas; muitas vidas. Mas certas horas... rsrs, acho que ele parecia um misto de raposa com menino. Um homem de muitas vidas. Uma alma antiga. Cansada dessas muitas vidas. Como eu.
Nos tornamos amigos quase imediatamente. Assim. Eu gostava muito dele e ele sabia disso. Ele gostava muito, muito de mim, e eu sabia disso. Sem mencionarmos isso. Dois velhos caminhantes que se encontravam. O Caminho era nosso parentesco.
Então era sempre risada, muita risada... Ele tinha o riso frouxo; e eu também, rsrs. E conversas muito profundas - é; o termo era esse: profundas. Às vezes me deixavam tonto. precisando de dias para processar o que diziamos, o que lembravámos. Para mim era uma relação muito, muito rica. Pra ele também, eu sei.
Me lembro do Zé disparando a rir.
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Era um escândalo. E ele não escolhia lugar pra rir - como eu, que soltei uma gargalhada na igreja outro dia, que... bom..., kkkkkkkkkkk.
Bom, um dia o Zé me chamou. Assim. Era bem dele isso... Acho que meu também... A gente puxava o outro pra conversar... assim... do nada. Ou do tudo... rsrs.
Ele me chamou pra conversar nesse dia, algo pra me entregar, pra deixar comigo, como se fosse uma dádiva ou um presente, e disse:
- Átila, um dia meu pai disse que queria conversar comigo. Isso ele fazia isso de vez em quando. Era um velho arreliado, mas cheio de vivência; meio seco, mas que me passava o que sabia do jeito que podia - e continuou. O velho me chamou e disse: "Zé... meu filho... preste atenção na vida; preste atenção nas pessoas. Tenha cuidado com isso. Preste bastante atenção e cuidado, porque na vida tem gente que caga mais pela boca do que pelo cú."
Foi isso que o Zé me disse. A conversa acabou ali. A deles, e a nossa.

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