domingo, 19 de junho de 2011

 Lilian Ferreira 
19/06/2011 - 07h00

 Dirigir com sono pode ser tão perigoso como encarar a volta para casa de carro depois de beber algumas doses de álcool, alertam especialistas em sono no 7 º Congresso Brasileiro Cérebro, Comportamento e Emoções, que ocorre em Gramado, Rio Grande do Sul. "Às 22 horas, o risco de ocorrer um acidente de trânsito é três vezes maior porque as pessoas já estão há muito tempo acordadas", conta a pesquisadora Mônica Andersen, do Instituto do Sono em São Paulo.
E o que fazer para o sono passar? "Dormir, não há nenhuma outra recomendação que surta efeito realmente. Ar frio e música alta despertam por apenas 5 a 10 minutos, no máximo", ressalta o neurocientista Fernando Louzada, da Universidade Federal do Paraná. A boa notícia é que mesmo cochilos de 20 minutos já fazem diferença.
Acidentes x sono
Estudos indicam que a quantidade de horas dormidas e há quanto tempo você está acordado influenciam diretamente em sua habilidade para guiar.
Se você dormiu 5,5 horas, corre 10 vezes mais chance de causar um acidente de trânsito do que se você tivesse dormido durante 8 horas. Já se a privação de sono for ainda maior, de 4,5 horas, o risco sobre para 12 vezes, enquanto se você tiver dormido só 3,5 horas o número salta para 20 vezes.

Horas dormidas x risco de acidente

  •            Adaptado de Stutts et al., 2003
Agora, se você dirigir de 15h a 20 horas depois de ter acordado, suas chances de cometer um acidente são 10 vezes maiores do que se você dirigisse nas 5 primeiras horas. Se você passar o dia todo acordado e for dirigir de 20h a 25h acordado, as chances de um acidente pulam para 60 vezes.

Horas sem dormir x risco de acidente

  •           Adaptado de Stutts et al., 2003
A relação entre sono e acidentes de trânsito é bastante estudada. A sonolência é responsável por 1/5 dos acidentes nos EUA, ou 1 acidente a cada 2 minutos. Os prejuízos são de 12,5 bilhões de dólares.
Por isso, não é de se estranhar que um Estado dos Estados Unidos tenha criado uma lei para punir quem causa acidentes depois de muitas horas sem dormir. "Em Nova Jersey, o motorista que for responsável pela morte de alguém em um acidente de carro e estiver mais de 24 horas sem dormir é acusado por homicídio doloso, aquele em que há a intenção de matar", destaca o neurocientista.
Louzada lembra ainda que o relógio biológico está programado para dormir de madrugada, então, assim que escurece, nosso corpo entende que está na hora de ir para cama e, muitas vezes, é difícil brigar contra o corpo. Um estudo realizado no Reino Unido comprovou que os horários em que ocorrem a maioria dos acidentes é durante a madrugada.

Horários de acidentes

  •          Horne, J A et al. BMJ 1995;310:565-567
Bêbado de sono
A expressão é popular e tem seu fundo de verdade. Pessoas que ficam acordadas de 17 a 19 horas têm performance no volante pior do que aqueles que apresentam nível de álcool no sangue (BAC) igual a 0,05%. Enquanto quem fica 24 horas sem dormir têm reações similares a quem apresenta BAC igual a 0,20%, de acordo com estudo publicado no New England Journal of Medicine. A lei seca brasileira proíbe a condução para quem apresenta mais de 0,20%.

A sociedade atual vive em privação de sono, com média de menos de 7 horas dormidas por noite. E isso pode acarretar graves danos à saúde. "É falsa a ideia de que dormir mais é perda de tempo, durante o sono ocorrem importantes ajustes no organismo", defende Geraldo Lorenzi Filho, chefe do Laboratório de Investigação de Doenças do Sono do InCor, durante o 7 º Congresso Brasileiro Cérebro, Comportamento e Emoções, que ocorre em Gramado, Rio Grande do Sul.
O doutor da Faculdade de Medicina da USP explica que, quando dormimos, a temperatura corporal cai de 37° C para 35° C, a pressão cai 10% e também há diminuição do tônus muscular. Durante o sono REM, o cérebro está acordado enquanto o corpo dorme. Hormônios como o do crescimento e a melatonina são produzidos, e a memória é organizada. Os aparelhos circulatório e respiratório descansam.
"Hoje temos academias que abrem 24 horas, aí reservamos tempo para fazer uma atividade física para 'o bem da saúde' em detrimento do sono, mas dormir também deveria ser prioridade para se ter qualidade de vida", ressalta Mônica Andersen, pesquisadora do Instituto do Sono em São Paulo.
Nos homens, o sono provoca principalmente sonolência durante o dia; já nas mulheres, o cansaço é a sensação principal, enquanto as crianças tendem a ficar mais hiperativas. 
Além disso, dormir menos do que o corpo precisa (e isso varia de pessoa para pessoa -algumas podem precisar de nove horas enquanto outras ficam bem com seis horas de sono) nos deixa mais sensíveis a dor, diminui a capacidade mental e a memória, aumenta a ansiedade e a obesidade, reduz o nível de alerta e, assim, crescem os erros por omissão. Dormir menos de seis horas consecutivas afeta a coordenação, julgamento e velocidade de reação.
E não adianta tentar compensar a correria do dia-a-dia dormindo até tarde no final de semana. "Existe débito de sono, mas não existe crédito, de você dormir muito e acumular para gastar durante a semana. Claro que é melhor do que não dormir o ideal também nestes dias", explica o neurocientista Fernando Louzada, da Universidade Federal do Paraná. Ele lembra ainda que é preciso cuidado para não acordar tarde, - indo assim dormir tarde no sábado e domingo, começando a segunda-feira com sono.
  • Dormir menos de 6 horas afeta julgamento e velocidade de reações
    Dormir menos de 6 horas afeta julgamento e velocidade de reações 

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