Folha de São Paulo 25 de Outubro de 2009 Já que é inevitável ter inimigos, a coisa melhor do mundo é ter um de verdade: que te odeie com lealdade e sinceridade - sem nenhum fingimento.
Ele é capaz de falar mal de você em público sem ter, em momento algum, medo de que repitam o que ele disse. E também pode te dar um tiro ou uma facada, mas sem nunca te enganar - sempre numa boa.
Não é, positivamente do tipo que diz "vou te contar uma coisa, mas não repita, fica só entre nós dois". Dele você pode esperar sempre o pior: que impeça que aquele negócio que estava planajando havia anos se realize, que diga àquela gata que está povoando seus sonhos que você é um cafajeste, que o dinheiro que você esbanja vem do tráfico de drogas - ou coisas ainda piores. Sabendo do que ele é capaz, você pode sempre se defender - o que é mais do que lidar com a hipocrisia.
Como guerra é guerra, nada que ele faça de ruim poderá surpreeender - essa é a vantagem de ter um inimigo leal. Quando se encontram num restaurante, vcê já sabe que deve ficar alerta e se sentar de costas para a parede, como fazem os malandros.
Ele é capaz de seduzir sua filha menor, de contratar alguém para roubar seus documentos e de jurar sobre a Bíblia sagrada que viu você subornando um político. Tudo faz parte, e quanto nais coisas ele fizer contra você, mais você aprende a se defender; como se aprende com um inimigo assim - ah, como se aprende.
Perigosos mesmo são os pseudo-amigos, aqueles que te tratam bem e que volta e meia fazem um comentário sobre você - maldoso e irônico, mas não tão maldoso a ponto de chocar -, afinal, é apenas uma brincadeira, será que você perdeu o humor? E aquele que passou anos construindo a imagem do bom caráter de carteirinha pode fazer você levar a vida inteira na dúvida, sem ter coragem de encarar a verdade: que se trata apenas de um crápula.
A tal de imagem ilude muita gente, que durante anos pensa que o personagem é defensor das boas causas, dos fracos e oprimidos, e sempre politicamente correto - faz parte do modelo, claro. Incapaz de encarar uma briga de frente, ele não consegue nem ter inimigos, pois, como ser humano, não passa de uma fraude - e de um covarde.
Está sempre atrás de alguma vantagem - alguma pequena vantagem - e frequentemente comete traições - pequenas traições que dificilmente poderão ser comprovadas. E se alguém ousar acusá-lo de alguma coisa, sempre haverá alguém para defende-lo - afinal, de uma pessoa com um passado tão correto, só um louco ousaria dizer alguma coisa.
Suas maldades e falhas de caráter nunca são grandiosas, porque nada nele é grandiososo. suas maldades são pequenas, porque tudo o que ele faz é pequeno, pequeno como sua pessoa, pequeno como sua alma. Mas, às vezes, se tem que conviver com gente assim - como fazer?
Se for seu caso, não faça nenhum tipo de concessão. Cometa um assassinato, internamente, e esqueça de que ele existe - mas esqueça mesmo. Mas atenção: é importante que ele saiba que você sabe perfeitamente quem ele é.
Fique cego quando passar por ele, e se alguém mencionar seu nome, não ouça; esqueça das mesquinharias de que é capaz um pore ser humano.
E valorize seus inimigos, os bons. Eles estão sempre dispostos a liquidar com você, mas sempre com a maior lealdade.
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