sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Tanto nossa alma como nosso corpo são compostos de elementos que já existiam na linhagem dos antepassados. O novo na alma individual é uma recombinação, variável ao infinito, de componentes extremamente antigos. Nosso corpo e nossa alma têm um caráter eminentemente histórico e não encontram no realmente-novo-que-acaba-de-aparecer lugar conveniente, isto é, os traços ancestrais só se encontram parcialmente realizados. Estamos longe de ter liquidado a Idade Média, a Antiguidade, o primitivismo e de ter respondido às exigências de nossa psique a respeito deles. Entrementes, somos lançados num jato de progresso que nos empurra para o futuro, com uma violência tanto mais selvagem quanto mais nos arranca de nossas raízes. Entretanto, se o antigo irrompe é freqüentemente anulado e é impossível deter o movimento para a frente. Mas é precisamente a perda de relação com o passado, a perda das raízes que cria um tal mal-estar na civilização, a pressa que nos faz viver mais no futuro, com suas promessas quiméricas de idade do outro do que no presente, que o futuro da evolução histórica ainda não atingiu. Precipitamo-nos desenfreadamente para o novo, impelidos por um sentimento crescente de mal-estar, de descontentamento, de agitação. Não vivemos mais do que possuímos, porém de promessas; não vemos mais a luz do dia presente, porém, perscrutamos a sombra do futuro, esperando a verdadeira alvorada. Não queremos compreender que o melhor é sempre compensado pelo pior. A esperança de uma liberdade maior é anulada pela escravidão do Estado, sem falar dos terríveis perigos aos quais nos expôem as brilhantes descobertas da ciência. Quanto menos compreendemos o que os nossos pais e avós procuraram, tanto menos compreendemos a nós mesmos, e contribuímos com todas nossas forças para arrancar o indivíduo de seus instintos e de suas raízes: transformado em partícula da massa, obedecendo somente ao que Nietzsche chamava o espírito da gravidade.
É evidente que as reformas orientadas para a frente, isto é, por novos métodos ou gadgets, trazem melhorias imediatas, mas logo se tornam problemáticas e ainda por cima custam muito caro. Não aumentam em nada o bem-estar, o contentamento, a felicidade em seu conjunto. Na maioria das vezes são suavizações passageiras da existência, como, por exemplo, os processos de economizar tempo, que infelizmente só lhe precipitam o ritmo, deixando-nos então com cada vez menos tempo. "Omnis festinatio ex parte diaboli est"*, costumavam dizer os antigos mestres.

Memórias, Sonhos e Reflexões
* "Toda pressa vem do Diabo."

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