Cresci no campo, entre camponeses, e o que o estábulo me havia ensinado eu aprendia também através dos chistes rabelaisianos e das fantasias desabridas do folclore de nossos camponeses. O incesto e as perversidades não representavam para mim novidades dignas de nota e não mereciam explicações especiais. Pertenciam, como a criminalidade, ao resíduo negro que estragava o gosto da vida, pondo-me diante dos olhos, com demasiada nitidez, a fealdade e a estupidez da existência humana. Que as couves tiressem o seu viço do esterco era para mim um fato natural. Não encontrava nisso qualquer esclarecimento confortante. Só as pessoas da cidade parecem ignorar tudo acerca da natureza e do estábulo humano, pensei (...).
Naturalmente, as pessoas que nada sabem da natureza são neuróticas, pois não estão adaptadas à realidade. São ainda demasiado ingênuas, como crianças, e têm necessidade de que se lhes ensine que são humanas como todas as outras. Entretanto, esse conhecimento não basta para curar as neuroses; só recobrarão a saúde se conseguirem sair do atoleiro do cotidiano. Mas se comprazem demais naquilo que recalcam. E de que maneira poderiam sair disso se a análise não as desperta para a consciência do que é diferente e melhor? Se a teoria própria as atola na neurose e só lhes abre como solução a decisão racional, ou o uso da razão, de abandonar enfim as infantilidades, o que lhes restará? Pois é isso, precisamente, aquilo que são incapazes; e como poderiam tornar-se capazes se não se descobre algo que possa servir-lhes de ponto de apoio? Não se pode abandonar uma forma de vida sem substituí-la por outra.


Nenhum comentário:
Postar um comentário