Um dia eu vaguei pela casa, como era normal naqueles dias...
Minha mãe tinha morrido há alguns dias e eu estava num estado emocional que... não sei descrever direito. Eu estava em choque.
Não que eu amasse a minha mãe. Eu a odiava e a desprezava. É esse o sentimento que ela cultivou em mim, cuidadosamente ao longo de muitos anos. Era esse o seu patrimônio, em mim. Eu a odiava e a desprezava.
Havia afeto, é óbvio. Como digo sempre para T., "a gente cria apego até por periquito". O único afeto que eu recebi na vida havia vindo dela. E é isso que foi usado contra mim. Nunca perdoarei isso. E não preciso perdoar.
Mas a grande ruptura era simbólica. E não vou explicar mais nada que vou gastar meu latim. E eu detesto isso, rsrs. Ambas as coisas: explicar-me demais e gastar meu latim.
Um dia eu vaguei pela casa, como era normal naqueles dias...
E me vi parado na área de serviço do apartamento. O olhar vago, do Eu vago, no estado vago que eu era e estava, de repente parou em cima de algo.
Era uma caixa de sabão em pó.
Eu a vi; a caixa de sabão em pó.
E nela havia números, uma data.
E era algo que minha mãe fazia. Ela colocava a data em que abria determinados mantimentos, e através disso ela "regulava" o como eles estavam sendo usados, sua durabilidade. Pela empregada, por ela mesma, por outras pessoas da casa quando fôsse o caso.
E olhando aquela caixa de sabão em pó... eu vi. O que eu vi, não creio esquecer um dia. Peço não esquecer.
Eu vi, ali, que aquela modesta caixa de sabão, com seus números e sua data, tinha durado mais do que a mão humana que, pretensiosamente, a marcara. A marcara esperando seu fim. A mão se fôra. A caixa... A caixa estava ali.
E eu vi. Isso. Naquele... momento.
A mão já se fôra, e a caixa marcada por ela perdurava, e ainda existia. A mão que a marcara... não mais.
Foi isso que eu vi.

3 comentários:
ATILA
eu adorei !!
Eu senti uma coisa parecidíssima quando a minha avo faleceu (eu não a odiava, pelo contrario, eu a venerava). Ela tinha acabado de se jogar debaixo de um trem. Fomos rumo a casa de campo da família onde ficamos durante e após o enterro (caixão lacrado, corpo mutilado). Eu corri para o quarto dela e agarrei as roupas que ela tinha usado naqueles dias anteriores a sua morte. O cheiro dela (suor, perfume, acidez da pele) estavam empregnado nas roupas !! Ela morta, debaixo da terra, e os cheiros dela
ainda existindo ....mas o que mais me marcou foi rever um delicado relógio (que ela usava na hora em que faleceu)....ele estava em cima da penteadeira. Eu so tinha 14 anos, mas me lembro até hoje eu ter refletido naquela época sobre ele :
As suas agulhas não paravam de andar, tic, tac, tic, tac, : essas mesmas agulhas que a minha avo devia ter consultado a cada instante da sua VIDA para administrar a sua jornada...estavam agora marcando agora o tempo da sua pós-vida.
A minha avo morta....as agulhas do seu relógio “vivas” e andando ...tic, tac, tic, tac
a escova de cabelo .....
quantas vezes encontrei a escova da minha avo cheia de cabelos : eu arrancava o tufo e o jogava imediatamente na lixeira do banheiro. Mas quando cheguei no quarto dela apos o seu enterro, a primeira coisa que saltou aos meus olhos foi a escova na penteadeira : havia nela cabelos tingidos (com a raiz branca)...
mesma ela morta, deitada num caixão debaixo da terra, parte do corpo dela, os cabelos, essa relíquias, continuavam dentro do quarto...
Enquanto a minha avó era viva, os seus cabelos na escova me irritavam e terminavam sempre na lixeira. Ela morta, eles adquiriram um valor incomensurável : era a única coisa palpável que sobrava dela.
Eu so tinha 14 anos, mas eu ja tinha lido em algum livro que os Kamikazes cortavam os seus cabelos e unhas antes de subir nos seus aviões e partir para o voô suicida. Esses cabelos e unhas eram entregues aos seus parentes como restos mortais para que a familia pudesse efeiturar o sepultamente. Entrando no quarto, ao ver a escova, eu fiz imediatamente a associação entre minha avó suicida e os heroicos Kamikazes ! So que desta vez eu não me desfiz dos cabelos, eles não foram sepultados na lixeira. Eu os guardei durante muito tempo. Hoje eu não os tenho mais. O único vestigio da minha avó se encontra em 2 perólas de marfim que guardo com o maior cuidado. Essas pérolas faziam parte de um colar que lhe pertencia. Elas adiquiram a patina típica que o marfim ganha ao ficar em contato com o óleo contido no perfume da pessoa que o usa (a oleosidade da pele e o suor tb modificam a cor desse material). Minha avó faleceu em 1970. Desde então essas pérolas me seguiram por toda parte : ja moraram em Paris, se exilaram comigo no Brasil, mudaram varias vezes de residêcias e hoje dormem tranquilamente no fundo de uma gaveta do meu armario. Faz tempo que não olho para elas. Mas sei que estão perto de mim. São as únicas lembranças materiais que herdei dela ...essas duas bolinhas viraram preciosas reliquias manchadas pelo perfume que ela usava.
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