26/10/2009
A psiquiatra austríaca Heidi Kastner passou sua carreira dando opiniões de especialista sobre casos de pais que abusam dos filhos - incluindo o de Josef Fritzl. Numa entrevista à "Spiegel", ela discutiu seu novo livro e suas experiências pesquisando pais que abusam de seus filhos de formas horrendas.
Spiegel: Srta. Kastner, você escreve sobre atos de violência cruéis e extremos contra crianças. Quem gostaria de ler esse tipo de material voluntariamente?
Kastner: Não sei. Deparo-me com esses casos com frequência. Talvez eu tenha perdido, em certo grau, a percepção do quanto isso afeta os outros. Alguém que trabalha como lixeiro acaba se acostumando com o mau cheiro.
Spiegel: Seu livro está cheio de histórias de psicopatas, loucos violentos e outros maníacos. Você não está passando um pouco dos limites?
Kastner: É verdade que eu só descrevo os casos verdadeiramente brutais de abuso paternal. Mas sou uma psiquiatra forense, e trabalho nesse campo há 12 anos. Eu não lido exatamente com pessoas que batem em seus filhos no trem.
Spiegel: O que a interessa na crueldade dos pais?
Kastner: Meu maior interesse é a motivação dos agressores. Essa motivação foi muito pouco estudada nas chamadas tragédias familiares, por exemplo, nas quais um homem mata sua mulher e filhos. Quando eu estava preparando este livro, encontrei apenas três estudos sobre o assunto, e um deles era das Ilhas Fiji.
Spiegel: O que você descobriu?
Kastner: Quando eu examinei os casos mais de perto, descobri que os homens que tiveram acessos de fúria em suas próprias famílias tinham uma coisa em comum: suas vidas haviam desmoronado em dois níveis. Foram deixados pela parceira e, ao mesmo tempo, haviam perdido o emprego ou enfrentavam sérias dificuldades financeiras.
Spiegel: A mesma coisa pode acontecer às mulheres.
Kastner: Sim, mas então tendemos a ver mães que ficam tão deprimidas que cometem suicídio e levam seus filhos consigo. Entre os homens, quase não encontrei casos em que a depressão fosse a causa subjacente. Desordens narcisísticas são mais prováveis nesses casos.
Spiegel: Você conta como uma mulher abusava regularmente do filho de dez anos. Em outro caso, uma mulher com tendências sádicas segurava a filha enquanto o namorado estuprava a criança. As mães são tão culpadas quanto os pais?
Kastner: Eu nunca disse que só os homens eram violentos. Com as mulheres, sempre tive um problema com o fato de elas ignorarem o que acontece. Essa desculpa de que "eu estaria perdida sem ele, e é por isso que eu não pude fazer nada quando ele abusou do meu filho" é totalmente nonsense - principalmente hoje, numa época em que os recursos terapêuticos e financeiros estão disponíveis a todos. Isso faz meu sangue ferver. As crianças sofrem por serem traídas pela mãe quase o mesmo tanto que sofrem por causa do próprio abuso. Nossas leis criminais não dão atenção suficiente à culpabilidade moral das mães.
Spiegel: É possível que as mães não percebam nada?
Kastner: Quando a mãe diz: "Eu não percebi nada, porque nunca estava em casa quando isso acontecia", é difícil processá-la. Mas é absurdo alegar que uma mulher não perceberia uma criança que sofre abusos durante quatro anos num apartamento de 40 metros quadrados.
Spiegel: Você escreve sobre a tradição de uma geração inteira de pais que exercem o "direito da primeira noite" com suas filhas...
Kastner: De fato. Encontrei esses casos o tempo todo, em todas as classes sociais. O pai acredita que a filha é sua propriedade, e ele tem tanto direito a ela quanto à maior fatia de carne sobre a mesa. E a mãe encobre isso. Quando uma filha chega para a mãe e diz: "Meu pai fez coisas estranhas comigo", ela responde: "Ah, mas não faça tempestade em copo d'água. Meu pai fez a mesma coisa comigo."
Spiegel: Como são as coisas nesses tipos de família? Pode haver algo como uma vida normal dentro desse contexto inconcebível?
Kaster: Há esses ritos de passagem que acontecem apenas uma vez e que são considerados como parte de se tornar um adulto em algumas famílias. Mas também há famílias nas quais a filha é rotineiramente abusada por muitos anos, e mesmo assim a vida nessas famílias parece surpreendentemente normal. A criança isola completamente as coisas perversas que acontecem. Conversei com muitas vítimas que disseram que elas simplesmente se deitam lá como se não estivessem nem presentes. E quando chega o momento certo, elas voltam para a realidade. Ao separar as coisas dessa forma, é possível ir pescar com o pai ou sair com a família, e até mesmo gostar dele.
Spiegel: Não há algo de libertador para as mulheres da família quando, depois de várias gerações, uma finalmente se levanta para se defender?
Kastner: Não, pelo contrário. Nessas famílias, normalmente acontece que todos juntam forças para se opor à criança que denuncia o pai à polícia. Nesse sentido, as vítimas mulheres são mais emancipadas do que os homens. Com certeza existem muitos meninos abusados que raramente vão à polícia, porque é mais difícil conciliar o abuso sexual com a autoimagem masculina.
"Ele sabia que o que estava fazendo era errado"
Spiegel: Você ficou conhecida por causa de um caso particularmente repulsivo de incesto. Você escreveu o relatório psiquiátrico de Josef Fritzl, que manteve a filha presa por quase 24 anos num porão. Não faria mais sentido escrever um livro sobre o caso?
Kastner: O caso de Fritzl também é um fardo para mim, porque sou frequentemente associada exclusivamente a ele. Além disso, será que precisamos satisfazer esses interesses voyeuristas questionáveis? Ninguém se tornará uma pessoa melhor por saber com que frequência o senhor Fritzl trocava de meias.
Spiegel: No caso de Fritzl, você teve a sensação de o compreendia?
Kastner: Sim. O que aconteceu com o caso de Fritzl foi que, embora eu tenha conversado com o homem por 27 horas, pensei comigo mesma, depois das primeiras cinco horas: posso entender e explicar como ele funciona.
Spiegel: Então como ele funciona?
Kastner: Baseado em sua crença de um exercício ilimitado e sexualizado do poder. Ele perseguia garotas no parque, estuprou uma mulher e prendeu sua filha, e ele sempre acreditou que poderia sair impune. Todos conhecemos essa sensação de uma forma mais branda. É um sentimento assustador de autocorrupção, baseado no mote: Agora que eu comi a primeira fatia de torta, não importa se eu comer mais uma.
Spiegel: Fritzl tem algum sentimento de culpa?
Kastner: Com certeza ele sabia que o que estava fazendo era errado. Uma vez ele me disse que ficou cada dia mais difícil terminar a situação com sua filha. Depois de uma semana, ele pensou que deveria deixá-la ir embora, mas então perguntou a si mesmo: "Como vou explicar isso para minha mulher e para os outros?" Depois disso, ele pensou que teria que esperar até que sua filha estivesse tão devastada para que ele tivesse certeza de que ela não contaria a ninguém. Mas quanto mais ele esperava, mais claro se tornava para ele que a melhor solução era simplesmente mantê-la no cativeiro.
Spiegel: Em algumas reportagens da mídia, foi sugerido que Fritzl é um cara bem inteligente...
Kastner: Ah, você ficaria surpreso em saber quão pouca inteligência é necessária para fazer algo tão sinistro. Fritzl é um técnico que executava suas ações com a precisão de um contador. Eu sabia que não deveria esperar nenhuma reflexão sofisticada por parte dele, porque isso não aconteceu. Fritzl tem uma mente simples. Para ele, tudo está fechado em uma caixa. Não há nada mais.
Spiegel: Fritzl foi o seu pior caso?
Kastner: A dimensão cronológica foi certamente incomum. Mas no que diz respeito aos detalhes, encontrei crimes similarmente horríveis.
Spigel: Você descreve o caso de um homem chamado G., que batia na mulher e abusava do filho, um bebê, com tanta brutalidade que a criança morreu. Quando você entrevistou G. na prisão, ele se descreveu como um inocente perseguido e se vangloriou por se corresponder com uma mulher rica. Como você conseguiu ficar calma numa conversa com um homem como este?Kastner: Devo admitir que achei difícil tolerá-lo, como pessoa. Tento ser consciente das minhas próprias reações, para evitar que elas moldem minhas ações. Eu cheguei lá como profissional e não como uma pessoa com suas próprias emoções. Mas eu percebo que é difícil para mim me distanciar de alguns dos casos e permanecer objetiva.
Spiegel: Os agressores tentam te manipular?
Kastner: É claro, sempre.
Spiegel: Você percebe algo assim logo de cara?
Kastner: Não, eu estaria mentindo se dissesse isso. Mas ao longo dos anos eu certamente desenvolvi um sexto sentido para as coisas que parecem um pouco suaves e agradáveis demais, o que me torna desconfiada profissionalmente. Você precisa conhecer bem os arquivos e se preparar bem.
Spiegel: Seu livro é tão cheio de abominações que uma pessoa pode perder a fé no lado bom das pessoas. Você já desistiu da humanidade?
Kastner: De jeito nenhum. Eu lido com esses casos diariamente, às vezes por 12 a 14 horas diárias, e já vi o mal por quase todos os ângulos. Prometi a mim mesma que se eu perceber em algum momento que isso está me transformando, deixando-me deprimida, resignada ou cínica, vou parar. Mas não é o caso. Eu agucei minha percepção e sou provavelmente bem mais curiosa do que muitas pessoas. O mal faz parte da natureza humana. É melhor reconhecer o fato.

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