Ariadne Araújo
25/03/2011
25/03/2011
Após uma desilusão amorosa, a morte de um ente querido, uma demorada
doença ou grande crise pessoal, também durante catástrofes naturais,
guerras e conflitos. Os livros têm sido companheiros fiéis, ajudando
milhares de pessoas a ultrapassarem tempos difíceis. Em "A arte de ler ou como resistir à adversidade"
(Editora 34), a pesquisadora francesa Michèle Petit conta como a
leitura tem salvado, transformado e reconstruído vidas, seja na Europa,
seja em pequenos lugarejos da América Latina.
No Brasil, na Argentina, na Colômbia e no México, a pesquisadora
acompanhou as chamadas "experiências literárias compartilhadas".
Organizadas por mediadores culturais - professores, bibliotecários,
psicólogos, artistas, escritores, editores, livreiros, trabalhadores
sociais -, essas experiências literárias têm como foco justamente
populações mais distantes dos livros: "crianças, adolescentes, mulheres
ou homens, em geral pouco escolarizados, oriundos de ambientes pobres,
marginalizados, cujas culturas são dominadas".
Lendo em voz alta e discutindo livros juntos, essas pessoas encontram no
prazer da leitura as representações e figurações simbólicas que
precisam "para sair do caos, seja ele exterior ou interior". Pois,
segundo Petit, os recursos culturais de linguagem, narrativos e
poéticos, são tão vitais quanto a água. E, para isso, todas as formas de
literatura são válidas: os mitos e lendas, os contos, romances, poemas,
teatros, diários íntimos, histórias em quadrinhos, ensaios, livros
ilustrados.
Local de acolhida, a leitura proporciona um "esquecimento temporário da
dor, do medo e da humilhação". Ela é suporte "para despertar a
interioridade, colocar em movimento o pensamento, relançar a atividade
de simbolização, de construção de sentido e incita trocas inéditas", diz
a pesquisadora. Para realizar essa experiência, os mediadores contam
com a curiosidade intelectual de homens e mulheres. Assim, na floresta
amazônica, refém da guerrilha na Colômbia, Ingrid Betancourt sonhava com
um luxo: um dicionário enciclopédico.
Quando lemos, damos um salto gigantesco no espaço e no tempo. A voz
interior do autor faz reviver uma outra. Segundo Petit, "ler,
apropriar-se dos livros é reencontrar o eco longínquo de uma voz amada
na infância". Nesse reencontro com a voz materna ou paterna, ou ainda da
avó ou avô, as "palavras são bebidas como se fossem leite ou mel".
Nesse desvio de tempo, de acordo com relatos de mediadores, alguns
adolescentes, ao ouvir as narrativas, "se esticam e se curvam em posição
fetal, enquanto outros fecham os olhos".
No Brasil, a pesquisadora acompanhou a experiência do projeto Cor da
Letra, que forma mediadores de leituras para o trabalho em escolas
públicas e privadas, hospitais, bibliotecas, centros sociais e
culturais, nos bairros urbanos pobres e interior em várias regiões do
país. Apesar da dificuldade em transmitir o gosto pela leitura, as
pessoas têm sido tocadas pela "voz" dos livros. Nesta e em outras
experiências, não se trata de fuga do real, "mas uma pausa, um intervalo
necessário para curar as feridas de uma realidade demasiado dolorosa.


3 comentários:
Maravilhoso
Isso foi o que ocorreu comigo
Muito bom!! Eu sou amante da leitura! Amo ler!
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